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À querida Zazá

E não é que o tempo passou? Às vezes rápido, às vezes devagar, mas lá se foi o ano na Europa, tão esperado. O blog cumpriu, em parte, com o objetivo inicial, de contar as experiências vividas naquele período cheio de novidades pra mim. Confesso que acabei deixando de atualizar com frequência – preferi ir “viver” a “contar”. Confesso que vivi tantas outras histórias que nem passaram por aqui. Talvez esse seja o lado bom: terei muito assunto pra conversar com quem quiser saber de mais histórias, como o dia em que desci com o carro as escadas da praça central da cidade, ou o acidente quando o carro saiu derrapando por causa da neve na pista.

Agora, de volta ao Brasil, estou procurando o caminho da volta ao jornalismo – se é que algum dia me afastei realmente dele. E quando eu tiver tomado um rumo mais certo, conto as novidades. Quanto ao blog, acho que vai ficar parado por enquanto, até eu definir uma nova função pra ele. Foi uma experiência divertida, e a participação de vocês foi fundamental. Ainda fico devendo atualizar as fotos, pra não perder o costume :) Pra quem quiser manter contato, este será sempre um canal – mandem comentários, que posso mandar meus contatos.

Por fim, mas não menos importante, quero homenagear o blog à querida Zazá, talvez a leitora mais fiel e empolgada, que infelizmente não pôde ler o blog até o fim. Mas o carinho e as boas lembranças da nossa Zazá ficarão pra sempre por aqui. Um “xêro” pra você, vó.

Um ano depois…

“Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

Amyr Klink, em Mar Sem Fim

Morei um ano na Bélgica. Posso dizer que esse período foi o lide da minha ainda curta experiência de vida. No coração da Europa, a poucas horas de distância das principais cidades do velho mundo, segui meu objetivo de viajar o máximo possível. Conheci pelo menos 40 cidades em 16 países. Cruzei os mesmos canais onde mercadores criaram o mercantilismo. Toquei nas pedras de castelos que um dia viveram o feudalismo da Idade Média. Cheguei a centímetros de distâncias de quadros famosos como O Grito, recuperado. Respirei o mesmo ar que os personagens daquele grosso volume dos livros de histórias. Vivi culturas desconhecidas e aprendi com as diferenças.

Conheci europeus educados, prestativos e divertidos, e não tão frios e individualistas como se diz no Brasil. Alguns até desviram seu caminho pra me ajudar quando eu saí de vista do meu próprio mapa. Mas conheci também europeus objetivos, práticos e pontuais, simplesmente dando continuidade à sua cultura milenar. Alguns até chegaram a dizer que não poderiam ajudar a desvirar um caiaque cheio de água, porque não tinham nada a ver com aquilo. Aprendi que brasileiros no exterior viram necessariamente meus amigos, e pulam a etapa que eu teimava em criar, de seleção baseada nas ideologias e no gosto musical.

Vi que na Europa também tem lixo no nas ruas. Mas tem bem menos do que nas ruas brasileiras. Vi que na Europa os motoristas também ultrapassam a velocidade máxima permitida. Mas as estradas deles são melhores que as nossas. Aprendi até sobre o meu país: percebi que o Brasil ainda tem uma sociedade conservadora, ao contrário do que muitos pensam só por causa do nudismo permitido nos dias de carnaval. Vi que casais de namorados europeus abraçados nas ruas com a mão no bumbum do parceiro é demonstração de carinho numa sociedade “open minded”, e não baixaria, como se diria no Brasil.

Descobri que só suporto falar mal do meu país se for para brasileiros. Com estrangeiros, senti vergonha de conversar sobre segurança, saúde pública, desigualdade social, educação e corrupção no Brasil. Vi pessoas aterrorizadas com histórias sobre a miséria que eu encontrava todos os dias nas cidades brasileiras, e me questionei se eu já não me assusto mais com isso. Mas tive orgulho de dizer que formamos o Bric, que hoje temos uma economia forte, muito petróleo, muita biodiversidade e somos uma liderança na América Latina.

Tive que ouvir que um passeio de caiaque no Brasil deve ser mais emocionante do que nos Ardennes (Bélgica) por causa dos jacarés. Mas aprendi, com a saudade, que o sol é bom. Mesmo que ele seja até enjoativo no nordeste brasileiro. Descobri que sinto saudades e gosto do meu país, apesar de tantos problemas, apesar de também gostar de viver em lugares diferentes. Descobri que gosto de arroz e feijão, mesmo que eu ainda prefira experimentar comidas que nunca vi.

Rabequeiro Desbotado

Hoje eu o vi. Estava lá, provavelmente como sempre esteve, mas foi hoje que parei ao seu lado. A melodia suave e tristonha que vem da rabeca ambienta aquela rua barulhenta e movimentada pelo comércio do centro da cidade. Os outros devem estar habituados e não o percebem mais. Tudo parece compor uma paisagem indiscutivelmente normal, como se não pudesse ser de outro modo.

Estava sentado no meio-fio, em frente a uma grande sapataria na esquina da Coronel Cascudo com a Princesa Isabel. Ao seu redor, no chão, uma caixa surrada de rabeca onde mais tarde guardará minha contribuição, um boné muito velho com umas poucas moedas, um pedaço de cabo de vassoura e dois sacos plásticos. Hoje ele ganhou sapatos.

Quis me aproximar, temendo que me rejeitasse. Quando cheguei, a primeira reação dele foi perguntar se eu conhecia “os meninos do teatro”. Antes que eu entendesse a pergunta, continuou: “Diga pra eles me darem dinheiro. Eles pagam todo mundo lá, mas não me pagam”. Tentei entender se o rabequeiro já tinha se apresentado em algum teatro da cidade, se alguém estava lhe devendo. Mas ele só repetia, como se fosse óbvio: “Eles não pagam pra quem toca?”, e cuspiu ao seu lado, no chão, uma secreção escura de sangue.

“Conhece essa?”, me perguntou enquanto tocava o Forró do pé rapado. Sua fala é difícil de entender. Diferente do seu olhar e sua música. Um corpo franzino, a roupa suja, barba por fazer, o cabelo grisalho também nasce nas orelhas. Tem o olhar baixo e triste como o som da rabeca.

Todo dia ele está aqui. Chega antes das dez da manhã e fica até o sol baixar, depois das quatro. Almoça quando o dinheiro dá. Hoje ainda não deu. No final da tarde, passa na sorveteria mais tradicional da cidade. Lá o rabequeiro toca e canta para os casais de namorados. Os que frequentam lembram bem da canção mais tocada, Atirei o pau no gato.

André Rabequeiro é também Seu Cabugi. O porquê ele não se lembra. Aliás, ele não se lembra de muita coisa. Sabe que tem 64 anos, mora em Mãe Luiza, nasceu em Santo Antônio do Salto da Onça. E só.

Desde que cheguei, ele não parou com a música. Estamos lado a lado. Eu o observo. Ele com o olhar estrábico disperso. Deita a cabeça na rabeca descascada e acaricia as quatro cordas com o arco de crina. De enfeite, uma fita laranjada no arco dança ao ritmo melancólico de Só quero um xodó. Essa deve ser a décima rabeca dele. Hoje, dia de Santo Antônio, o casamenteiro, a rabeca é sua namorada.

Mas ele é casado. Contou que tem três filhos. Eles moram no sítio da família, em Mendes. Lá Seu Cabugi cuidava do roçado quando era moço. É a única coisa que sabe da sua juventude. Não se lembra de mais nada. Nenhuma história que avós gostam de contar. “Faz muito tempo já”, explicou. E cuspiu de novo aquele catarro cheio de sangue.

Depois de uma pergunta, ele fica calado e não sei se vai me responder. Poderia estar pensando na resposta ou simplesmente me ignorando. De repente, sempre com o olhar baixo, coloca a rabeca entre as pernas e diz o que sabe.

André Rabequeiro também não se lembra quando começou a tocar, mas garante que aprendeu sozinho. “A cabeça não serve só pra levar chifre não”, brincou. Ele diz que toca músicas de Pernambuco, mesmo sem nunca ter saído do Rio Grande do Norte, e orgulha-se. Agora está tocando e cantando É frevo meu bem: “Pernambuco tem uma dança que nenhuma terra tem, quando a gente entra na dança, não se lembra de ninguém…”

A música do rabequeiro dá pra sustentar a família. A mulher não trabalha. Mas quando aparece oportunidade, ele também faz cama, tamborete, mesa… “Se tiver saúde, está bom”. Contou que passou um tempo no Hospital Colônia João Machado, e depois no Giselda Trigueiro. O problema, explicou, “é na cabeça”. Ele toma remédio. Não sabe para quê. Mas a vida, “vai do jeito que Deus quer”. E cuspiu de novo.

Agora ele toca e canta: “todo tempo quanto houver pra mim é pouco, pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco”. As pessoas que passam olham curiosas, como se tivesse alguma coisa errada porque eu estava ali, ao lado do rabequeiro. Quando ele estava sozinho, poucos se importavam. Mas agora querem saber o que aconteceu. “Tá doendo as mãos já. Vou-me embora. Podendo tá em casa descansando…”. E cuspiu.

Já estou com o rabequeiro há quase uma hora, mas ele é de poucas palavras. Quando eu disse que ia embora, fez que não ouviu. Eu já me afastava na rua, quando ele falou: “Pois fale com eles lá. Eles pagam aos outros e não me pagam. Eu sou ambulante. Eles deviam me pagar. Tenho até caixa de som. Foi difícil, mas eu comprei. Se eles me pagassem lá, menina, eu tava outro”. E continuou com sua Asa branca desbotada.

ADENDO

Este meu texto foi originalmente publicado na revista cultural Brouhaha, ano IV, nº 12, maio/junho de 2008. Hoje publico aqui no blog em homenagem ao rabequeiro, que essa semana, por causa de uma tuberculose, se separou definitivamente de sua rabeca. O texto também foi republicado na edição de hoje no Novo Jornal e citado em reportagem do Diário de Natal.

A versão dele

Como não conheci Amsterdã

Por Leonardo

Bom… eu sei q não sou bom com essas coisas de blog… a necessidade de postar que a coisa pede não se encaixa bem comigo…

Bom… mas continuando… Assim que chegamos passamos em casa para deixar minhas coisas e fomos para Bruxelas… de cara 1 milhão de coisas diferentes… do pagamento do estacionamento à chave da porta… :P

A partir daí percebi que tinha 1 milhão de tipos de cervejas que iria provar durante toda a viagem… tb a promessa de anotar tds os nomes (promessa que não cumpri, obviamente :P). Então fomos a Bruxelas e lá demos nossa primeira volta…. que surpresa logo de cara acontece: PATOS ANDANDO EM FILA GUIADOS POR UM MÚSICO! Como pode isso? Até os patos são tão obedientes assim?!

Visitamos a Grand Place de Bruxelas, muito bonita! O famoso menininho do xixi (PIRU PEQUENO! PIRU PEQUENO! :P). Tem tb a menininha… mas aí não conheci, só a Patrícia depois.

Após essa pequena volta pelo centro de Bruxelas fomos para o festival (de quê? Não sei dizer… sei q sempre tem festivais :P). No caminho paramos pra comer frituur, uma comida típica lá… equivalente aos nossos sebosões da vida… só que, infelizmente, mais gostoso. São batatas fritas com molhos diferentes… podem acompanhar salsicha, hambúrguer, essas coisas… delícia!

Até que então vamos para o parque onde está havendo o festival… no caminho uma parada na fonte cheia de espuma… um casamento de uns africanos estava acontecendo… e eles resolveram colocar espuma na fonte! Bem legal… vcs devem ter visto a foto no Picasa. No caminho… vinho…

O ambiente do festival super legal… me lembrou a época que jogava RPG… uma floresta gigante… e o som que a príncipio estava chato… melhorou e muito com a Gipsy Queen… é… lá eles adoram música cigana….

Obviamente, não podia faltar cerveja em festa belga… a tal da pintje… até a terceira eu não tinha coragem de pedir com medo da língua… da terceira em diante ficou fácil fácil…

Uma das coisas mais díficeis de aceitar nessa viagem foi: ter que pagar para usar o banheiro. E no primeiro dia, regado a várias pintjes, como minhas finanças iriam sobreviver tendo que pagar algo em torno de 1 real e 50 centavos a cada ida no banheirooo?!?!?! Acabei tendo que improvisar na quarta vez que deu vontade… :P

Os belgas não se mexeram o dia inteiro… até começar a música cigana… mas o mais legal foi vê-los dançar músicas medievais… pareciam nordestinos com forró, cariocas com samba… muito legal! :D

Conselho número 1: nunca ande de bicicleta depois de tomar pintjes! Foi o que inventei de fazer qnd estávamos voltando… logo, o que aconteceu? Queda! :P

Conselho número 2: Nunca aceite a proposta de um gringo de tomar cachaça depois de algumas pintjes. Vc pode deixar de conhecer Amsterdã por causa de ressaca! :P

Bom… perdi de conhecer Amsterdã… mas muita coisa boa aconteceu no decorrer da viagem…

Black high tech

 Eles têm um ponto fraco.

Desde o início do verão, parece que a Terra deu meia volta por aqui. Inverteu o sentido. Ao invés de crescer, os dias diminuem. A noite, que chegava de vez lá pras 23h, agora já começa a dar sinais a partir das 21h. E cada dia está mais escuro de manhã, quando acordo. Mas hoje, o motivo da escuridão foi outra. Apagão, mesmo.

blackout

Tudo bem, acontece nas melhores famílias, pensei, enquanto tomava meu primeiro susto. Não consegui entrar na casa deles porque a porta, que abre com identificação pela impressão digital, claro que não funcionava. Nesse frio e escuridão, vamos lá, coragem, existe a chave pra esses casos, e ela tem que estar em algum lugar.

Mas o segundo desafio seria mais difícil de driblar. Como descongelar o pão pro café da manhã sem micro-ondas(olhaê, novas regras ortográficas!)? No forno, sim, claro! Isso se o forno também não fosse totalmente elétrico. E até o fogão. Isso significa que as crianças vão ter que tomar leite gelado nesse frio? Como o Peter vai sobreviver sem o café expresso dele, feito na cafeteira elétrica embutida no armário?

Enquanto todos ainda dormiam, minha imaginação ia longe. Nenhum mortal consegue tomar banho gelado nesse frio, mas se bem que um dia sem banho não seria grande problema pra eles. Mas e os aquecedores? Ainda bem que não era frio insuportável de inverno… De repente me deparei com o problema mais triste do apagão na casa high tech. Balthazar, nosso Garfield gordo e preguiçoso, tava todo molhado e morrendo de frio. Ele ficou trancado a noite toda fora de casa, pegando chuva, porque a portinha dele só abre com a identificação do chip que o pobrezinho tem debaixo da pele, e esse sisteminha também não funcionou no apagão!

Eu poderia passar o dia todo constatando a nossa impotência nessa casa high tech sem energia. Mas aí o Peter acordou e estragou minha diversão. Descobriu que o problema foi um curto-circuito, e que hoje à noite a diversão vai ser procurar qual equipamento foi danificado. Ainda bem que meu notebook tá aqui, inteirinho. Sem ele, impotente seria eu.

Coisinha boba, mas que me fez ficar pensando… como pode, a essa altura da “evolução” humana, sermos tão dependentes assim de energia? Tomara que nossas excelências aí no Brasil pensem em investir um pouquinho do lucro do pré-sal em energias alternativas, ao invés de se inspirarem nos governadores de Pernambuco e do Rio, discutindo quem vai ficar com o bolo, antes mesmo da festa.

Ele dormiu o dia inteiro pra compensar a noite na chuva

Ele dormiu o dia inteiro pra compensar a noite na chuva

Workaholic, eu?

Talvez. Trabalhar três finais de semana seguidos, por escolha própria, não é tão ruim assim se você gosta. Mas não estou falando de aturar choro e birra de criança. O trabalho nos dias de folga é bem mais produtivo. Começa com a pesquisa sobre um tema – sempre novo pra mim. Preparando as pautas, tenho aprendido coisas novas sobre a Bélgica. Depois, ir pra rua conversar com as pessoas, observar o movimento, registrar as novidades. Assim, com as minhas reportagens, estou descobrindo muito mais sobre a cultura e história do meu país hospedeiro. Aqui vai a matéria que fiz no fim de semana passado. Vejam só!

 

Flamengos expressam causa separatista em evento pela valorização de Flandres

Atletas, crianças, amadores, idosos e deficientes físicos, todos pedalaram juntos ao redor de Bruxelas

Atletas, crianças, amadores e idosos pedalaram juntos ao redor de Bruxelas

Cerca de 86 mil pessoas pedalaram neste domingo ao redor de Bruxelas em prol da valorização da cultura flamenga. O Gordel, como ficou conhecido, é um evento anual que, desde 1981, reúne ciclistas e pedestres no chamado cinturão verde da Bélgica. A área abrange os municípios da periferia de Bruxelas pertencentes à região administrativa de Flandres. O passeio tem caráter sócio-esportivo, mas é principalmente reconhecido pela mensagem política que divulga, de afirmação da região de Flandres.

Os participantes puderam escolher entre oito percursos diferentes destinados a ciclistas, pedestres, motociclistas e deficientes físicos. Os trajetos passaram pelos municípios de Sint-Gensius-Rode, Dilbeek, Zaventem, Overijse e Oudenaarde, somando mais de 800 quilômetros.

As bicicletas ocuparam o lugar dos carros nas ruas de Zaventem, cidade de 28,6 mil habitantes. Durante o evento, amarelo e preto – cores de Flandres – predominaram na decoração da cidade. Os moradores exibiram suas bandeiras nas janelas e pontos comerciais, distribuíram bexigas com slogan da região, vestiram camisetas em homenagem a Flandres e colaram nas roupas adesivos com o leão da bandeira flamenga.

Políticos aproveitaram o evento para divulgar suas causas. O ministro-presidente flamengo Kris Peeters esteve presente e falou em favor da divisão do distrito eleitoral de Bruxelas-Halle-Vilvorde (BHV). Já o ex-ministro para assuntos internacionais Geert Bourgeois pediu apoio de todos os partidos flamengos ao projeto de lei que prevê a divisão do distrito eleitoral.

O distrito eleitoral de BHV não respeita os limites regionais e linguísticos entre Flandres e Bruxelas, o que permite que candidatos francófonos se candidatem a cargos políticos nos municípios flamengos de Halle e Vilvoorde. Daí a proposta dos partidos flamengos de divisão do distrito eleitoral em dois: Bruxelas e Halle-Vilvoorde, que se juntaria à Lovaina. O objetivo é que os municípios flamengos da periferia de Bruxelas possam votar apenas em listas flamengas.

Tradicionalmente, o passeio em prol da valorização de Flandres é alvo de sabotagem atribuída a grupos francófonos. São recorrentes armadilhas nos trajetos, como a troca da sinalização para confundir os participantes e pregos espalhados nas vias para furar os pneus das bicicletas. Este ano, as armadilhas foram registradas principalmente nas cidades de Crainhem e Wezembeek-Oppem.

Para Sam Ganssens, representante da organização do Gordel e funcionário do Bloso – órgão encarregado pela pasta de esportes na região de Flandres – apesar do caráter político do evento, a proposta não é instigar as vozes separatistas. “Existem os fanáticos que vêm se expressar, mas este não é o nosso objetivo”, declarou.

A dona de casa Ann Eliese, 35, fez um circuito de bicicleta de 25 quilômetros com o pai, o marido e os quatro filhos. Ela mora em Zaventem e participa do evento quase todos os anos. “Devemos nos orgulhar de estarmos em Flandres”, diz a moradora que, apesar de não querer a separação política de Flandres, acha importante que a região flamenga tenha autonomia para tomar suas próprias decisões políticas.

 Separatismo

Questionado se se sente culturalmente mais próximo aos vizinhos holandeses, que partilham uma língua comum, ou aos valões, no sul do seu próprio país, o flamengo hesita. “Eu me sinto flamengo”, afirma o empresário aposentado Jan Stas, 55.

Com uma bandeira de Flandres inscrita na bandeira da União Europeia, Jan Stas é um dos que aproveita o Gordel para divulgar as ideias separatistas para Flandres. “Com essa bandeira, quero dizer que Flandres é um país da União Europeia”, disse.

Ele conta que há dez anos participa do evento. Justifica a causa separatista comparando dados sócio-econômicos que favorecem a região flamenga, mais rica e que, segundo ele, arca com os prejuízos dos altos índices de desemprego da Valônia, por meio dos auxílios-desemprego repassados pelo governo.

Separados pela barreira da língua, valões e flamengos convivem com rivalidade e sentimentos separatistas no país de 10,6 milhões de habitantes (menos que a cidade de São Paulo). Mas não é só o idioma que divide a Bélgica. As diferenças culturais e econômicas datam desde a formação histórica do país, uma monarquia constitucional que reúne dentro da mesma fronteira as regiões de Flandres, Valônia e Bruxelas, com três idiomas oficiais: holandês (Flandres), francês (Valônia e Bruxelas) e alemão (sul da Valônia).

Reportando

Depois do curso de correspondente internacional em Praga (ainda vou falar mais dele, no final do mochilão), resolvi colocar a mão na massa. O primeiro trabalho como correspondente foi pra Folha Online, e você pode ler clicando aqui. Também rendeu uma segunda versão pro site OperaMundi. Era sobre uma dança em massa, em defesa do meio ambiente, na praia de Ostende. Iniciativa de um cineasta belga e de ONGs, como o Greenpeace.

Foi muito legal fazer a matéria. O evento, super organizado. Cheguei lá e já tinha meu nome na listinha, inclusive com os horários em que eu iria entrevistar cada pessoa. Recebi a pastinha e a credencial pra poder chegar perto do palco e tirar fotos. Conheci jornalistas belgas de TV e impresso. Mas o mais legal foi ver aquele formigueiro de gente em passos sincronizados, que eu duvidei que seria possível quando começaram. E não é que conseguiram?

Já tenho uma listinha com algumas ideias pras próximas pautas. Claro que a ajuda dos amigos aqui tá sendo bem importante. A Paula, por exemplo, é uma pauteira de primeira. E agora que ela tá ficando com um belga, as sugestões vêm embasadas por um olhar nativo. Muito bom! Mas  pode ser que daí, de longe, vocês consigam ver coisas que não conseguimos daqui. Se tiverem alguma sugestão de pauta, ideias de temas para eu fazer uma matéria, avisem!

Depois de um dia de trabalho, quase esqueci de registrar minha passagem pela praia belga de Ostende

Depois do dia de trabalho, quase esqueço de registrar a passagem por Ostende

Ainda mochilando

 

 

 

No primeiro dia em Bruxelas, a fonte do Atomium espumada

No primeiro dia em Bruxelas, a fonte do Atomium espumada

 

 

Aquecendo

Por Patrícia

Ele só esqueceu de contar um detalhe. Quase que a carta-convite assinada pela chefe não sai e por pouco ele não fica sem o único documento que foi necessário pra entrar na Europa. E pior, por culpa minha. Ainda com as lembranças fresquinhas sobre a rejeição em massa de vistos a brasileiros na Espanha, o Leonardo procurou tomar todas as precauções necessárias – e desnecessárias também. Certo ele. De cima da minha auto-confiança, menosprezei a carta que ele me pedia. “Ah, não se estressa, você já tem comprovante de todos os albergues, passagens, grana…”, eu dizia. Até que a Annick sugeriu escrever a carta. Por 2 x 1, eles ganharam. Ainda bem.

Como não poderíamos perder tempo, deixamos as malas, cansaço, sono, preguiça, diferença de fuso-horário, tudo em casa e pegamos o trem de volta pra Bruxelas. A programação, um dos tantos festivais, que acontecem por lá a cada fim de semana. Dessa vez, era de música folk. Mas folklórico mesmo foi o lugar. Uma florestinha enlamaçada, a tarde escura da cidade eternamente nublada sendo iluminada por umas luzinhas coloridas.

Deu pra o visitante se iniciar nas tão famosas cervejas belgas. Quem dera tivesse ficado só com elas. Não sei o que dá em um brasileiro que, em primeiro dia de exterior, resolve provar uma cachacinha mineira. Deve ter sido só por educação, pra acompanhar o belga Philippe, que com a Iana forma o casal gente finíssima que nos recebeu em Bruxelas. Resultado, viagem pra Amsterdã no dia seguinte cancelada por motivos de ressaca maior.

Mais fotos do mochilão em Bruxelas aqui.

Dois meses depois…

Estou de volta. E com algumas novidades. A primeira é que eu e o Leonardo vamos contar juntos aqui, aos poucos, como foi o mochilão que fizemos nas férias de julho. Os textos vão ser alternados, meus e dele. E hoje, é ele quem começa:

 

Natal – Bruxelas

Por Leonardo

Bom, nunca fui bom de escrever textos mas tenho histórias pra contar. E foram bastantes. É díficil saber por onde começar, mas vou tentar começar pela minha chegada. Uma chegada há muito esperada. No avião foi td muito tranquilo. A viagem por cima do Oceano é meio chata, vc não tem nada pra ver pela janela, então fui dormindo e vendo filme, vendo filme e dormindo em qqr ordem.

Quando cheguei em Portugal tive que pegar uma fila enooorme da imigração. Todos os documentos em mãos (algo em torno de 50 folhas de papel :P) e brasileiros conversando o tempo todo (brasileiros estão em todos os lugares…todos!). Minha conexão pra Bruxelas tinha o embarque às 9:20 da manhã, estava eu na fila às 8:40 mais ou menos. A fila andava a passo de tartaruga e td que eu ouvia era a história de uma moça (?) que estudava (?) enfermagem e estava indo casar com um italiano e os guardinhas gritando: “PASSAGEIROS COM LIGAÇÕES! PASSAGEIROS COM LIGAÇÕES PARA ITÁLIA, LONDRES, FRANÇA, E TODO PAÍS DA EUROPA MENOS BÉLGICA!!!”

O tempo ia passando e a fila pouco andava. Até que quando faltavam 10min pro meu embarque e 15 pessoas na minha frente pedi: “PESSOAL, EU PODIA ESTAR ROUBANDO, PODIA ESTAR MATANDO, MAS EU SÓ QUERIA PEDIR A TODOS VCS Q EU PUDESSE PASSAR NA FRENTE POIS MEU EMBARQUE É DAQUI A 10MIN!!!!” Todos foram educados comigo e aceitaram que eu furasse aquela fila que quase não andava.

Fui eu para o guichê da imigração com meus 500 documentos: identidade, CPF, carteira de motorista, diploma do ensino médio, técnico, superior, carteira de trabalho, carteirinha do cineclube, declaração da empresa, comprovante de renda, declaração de imposto de renda, passagens de volta e de todos os trechos q iria fazer nestes 20 dias, albergues reservados em cada cidade, e mais milhares de coisas… dentre todas elas uma cartinha da chefe da Patrícia dizendo q eu estava indo visitá-la.

E quando o simpático sr. do guichê pergunta o que eu estava indo fazer lá… respondo eu: estou indo visitar minha namorada que mora na Bélgica. E O ÚNICO DOCUMENTO QUE ELE ME PEDIU FOI A CARTA QUE A ANNICK RESOLVEU ESCREVER 2 DIAS ANTES DA MINHA SAÍDA!!!!! Toda akela papelada, 50 folhas de papel, 500 documentos à toa!!!! (Aproveito o espaço pra agradecer a Annick novamente pela carta, facilitou muito minha entrada).

Ao menos passei… fui correndo para o portão de embarque… quando chego lá: NADA NA TELA! E AGORA? Ainda bem que eu estava em Portugal e não Madri, então pude perguntar para uma funcionária q me indicou o portão correto. A saída atrasou em quase 1hr (não é só no Brasil que tem o tal de CAOS :P). Mas consegui chegar e dar aquele abraço que se dá quando a saudade é grande. Bom… essa foi minha chegada… muita coisa ainda aconteceu neste dia… esse é só o começo…

Vacantie

Au pairs, mães, avós, tias e demais experientes com crianças,

Como sobreviver às férias escolares? Detalhe importante: numa família em que as crianças não podem ver televisão, usar o computador ou videogame, nem dormir de dia. Eu tenho tentado de tudo. Pintar com tinta guache, imprimir desenhos pra colorir, fazer bolinhas de papel crepom pra colar, brincar de Lego, de casinha. Se não chove, brincar com a bola no quintal, de esconde-esconde no jardim, na cama elástica ou quem sabe até na piscina.

Mas a Kato não consegue ficar 10 minutos na mesma atividade! Levo mais tempo preparando a mesa pra ela pintar, com jornais e capa pra proteger a roupa, abrindo as tintas, cortando as folhas, separando os pinceis do que ela passa pra fazer dois traços e dizer que basta.

Blaarmeersen = parque + clube + praia + lagoa

Blaarmeersen = parque + clube + praia + lagoa

Semana passada, no primeiro dia de férias, fui com a Carla (minha amiga au pair que mora em Ghent) e as crianças pro Blaarmeersen, uma mistura de praia, parque, clube e lagoa. Andamos de padalinho, fizemos castelo de areia, os pequenos tomaram banho de lagoa. Tava fazendo sol, e aquilo ficou lotado, um piscinão de Ramos.

Kato brincanco Blaarmeersen

Kato brincando no Blaarmeersen

No dia seguinte, fomos pro Play Beach, um playground fechado, com pula-pula, piscina de bolinhas, túneis, escorregador e tudo mais. Tomamos sorvete, e os pequenos brincavam enquanto eu e a Carla jogávamos baralho. Boa estratégia.

Já na sexta-feira, fomos pra praia de verdade. A família da chefe tem um apartamento em Blankenberge, uma cidade no litoral. Conheci a praia belga, mas o Mar do Norte não tava me convidando pra tomar banho. E ventava muito. A cidade é bem interessante e muito bem cuidada. Não é a praia mais popular (essa é Oostende) nem a mais grã-fina (essa é Knokke), mas é ideal pra programação em família. Em frente ao apartamento deles, tem uma grande praça cheia de opções de lazer, como cama elástica, mesas de sinuca, pistas de kart, golf, petanca (um esporte bem popular por aqui) e muito verde. Claro que não é lá uma praia brasileira, mas tem mar, areia, calçadão e cadeiras de sol. Só não gostei das centenas de armários que ficam na areia pra alugar, onde as pessoas guardam coisas tipo barcos, guarda-sol, cadeiras, e qualquer coisa que costumem usar na praia. O ruim é que atrapalha completamente a visão do mar pra quem está no calçadão. Reparem na foto:

Minha primeira praia belga

Minha primeira praia belga

Fui com a Kato pra praia, e a primeira coisa que ela fez foi jogar a bola pra cima, daquelas bem leves, de plástico. Resultado: a bola voando pra um lado, a Kato chorando pro outro. Larguei a bolsa no chão e fui correndo atrás da bola. Todo mundo olhava a bola chegando e passando, e ninguém teve a brilhante ideia de me ajudar. Depois de vários minutos correndo, quase perdendo a Kato de vista, escolhi perder a bola, ao invés de perder a menina.

Rolando na praia

Kato à milanesa

Ela ficou na praia até ontem. Mas e agora, o que fazer? Talvez um zoológico com um pic-nic. Mas hoje o dia tá muito feio. Penso em fazer brinquedos com material reciclado. Temos isopor, potinhos de iogurte, um monte de coisas. Mas ela não curtiu muito o chocalho que eu fiz. Quando eu era criança, todos os dias, no programa da Eliana, ela ensinava a fazer alguma coisa manual, mas não me lembro mais de nada. Então preciso de outras ideias. Sugestões de entretenimento pra uma pequena de 3 anos são bem vindas. E urgentemente.

Em breve, mais fotos do Blaarmeersen e da praia no meu álbum. Só não reparem que no Blaarmeersen a gringa era eu, a única de calça jeans na areia. É que quando saímos de casa ainda não tinha certeza de qual seria o destino!

VOCABULÁRIO
Vacantie: férias!

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