Hoje eu o vi. Estava lá, provavelmente como sempre esteve, mas foi hoje que parei ao seu lado. A melodia suave e tristonha que vem da rabeca ambienta aquela rua barulhenta e movimentada pelo comércio do centro da cidade. Os outros devem estar habituados e não o percebem mais. Tudo parece compor uma paisagem indiscutivelmente normal, como se não pudesse ser de outro modo.
Estava sentado no meio-fio, em frente a uma grande sapataria na esquina da Coronel Cascudo com a Princesa Isabel. Ao seu redor, no chão, uma caixa surrada de rabeca onde mais tarde guardará minha contribuição, um boné muito velho com umas poucas moedas, um pedaço de cabo de vassoura e dois sacos plásticos. Hoje ele ganhou sapatos.
Quis me aproximar, temendo que me rejeitasse. Quando cheguei, a primeira reação dele foi perguntar se eu conhecia “os meninos do teatro”. Antes que eu entendesse a pergunta, continuou: “Diga pra eles me darem dinheiro. Eles pagam todo mundo lá, mas não me pagam”. Tentei entender se o rabequeiro já tinha se apresentado em algum teatro da cidade, se alguém estava lhe devendo. Mas ele só repetia, como se fosse óbvio: “Eles não pagam pra quem toca?”, e cuspiu ao seu lado, no chão, uma secreção escura de sangue.
“Conhece essa?”, me perguntou enquanto tocava o Forró do pé rapado. Sua fala é difícil de entender. Diferente do seu olhar e sua música. Um corpo franzino, a roupa suja, barba por fazer, o cabelo grisalho também nasce nas orelhas. Tem o olhar baixo e triste como o som da rabeca.
Todo dia ele está aqui. Chega antes das dez da manhã e fica até o sol baixar, depois das quatro. Almoça quando o dinheiro dá. Hoje ainda não deu. No final da tarde, passa na sorveteria mais tradicional da cidade. Lá o rabequeiro toca e canta para os casais de namorados. Os que frequentam lembram bem da canção mais tocada, Atirei o pau no gato.
André Rabequeiro é também Seu Cabugi. O porquê ele não se lembra. Aliás, ele não se lembra de muita coisa. Sabe que tem 64 anos, mora em Mãe Luiza, nasceu em Santo Antônio do Salto da Onça. E só.
Desde que cheguei, ele não parou com a música. Estamos lado a lado. Eu o observo. Ele com o olhar estrábico disperso. Deita a cabeça na rabeca descascada e acaricia as quatro cordas com o arco de crina. De enfeite, uma fita laranjada no arco dança ao ritmo melancólico de Só quero um xodó. Essa deve ser a décima rabeca dele. Hoje, dia de Santo Antônio, o casamenteiro, a rabeca é sua namorada.
Mas ele é casado. Contou que tem três filhos. Eles moram no sítio da família, em Mendes. Lá Seu Cabugi cuidava do roçado quando era moço. É a única coisa que sabe da sua juventude. Não se lembra de mais nada. Nenhuma história que avós gostam de contar. “Faz muito tempo já”, explicou. E cuspiu de novo aquele catarro cheio de sangue.
Depois de uma pergunta, ele fica calado e não sei se vai me responder. Poderia estar pensando na resposta ou simplesmente me ignorando. De repente, sempre com o olhar baixo, coloca a rabeca entre as pernas e diz o que sabe.
André Rabequeiro também não se lembra quando começou a tocar, mas garante que aprendeu sozinho. “A cabeça não serve só pra levar chifre não”, brincou. Ele diz que toca músicas de Pernambuco, mesmo sem nunca ter saído do Rio Grande do Norte, e orgulha-se. Agora está tocando e cantando É frevo meu bem: “Pernambuco tem uma dança que nenhuma terra tem, quando a gente entra na dança, não se lembra de ninguém…”
A música do rabequeiro dá pra sustentar a família. A mulher não trabalha. Mas quando aparece oportunidade, ele também faz cama, tamborete, mesa… “Se tiver saúde, está bom”. Contou que passou um tempo no Hospital Colônia João Machado, e depois no Giselda Trigueiro. O problema, explicou, “é na cabeça”. Ele toma remédio. Não sabe para quê. Mas a vida, “vai do jeito que Deus quer”. E cuspiu de novo.
Agora ele toca e canta: “todo tempo quanto houver pra mim é pouco, pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco”. As pessoas que passam olham curiosas, como se tivesse alguma coisa errada porque eu estava ali, ao lado do rabequeiro. Quando ele estava sozinho, poucos se importavam. Mas agora querem saber o que aconteceu. “Tá doendo as mãos já. Vou-me embora. Podendo tá em casa descansando…”. E cuspiu.
Já estou com o rabequeiro há quase uma hora, mas ele é de poucas palavras. Quando eu disse que ia embora, fez que não ouviu. Eu já me afastava na rua, quando ele falou: “Pois fale com eles lá. Eles pagam aos outros e não me pagam. Eu sou ambulante. Eles deviam me pagar. Tenho até caixa de som. Foi difícil, mas eu comprei. Se eles me pagassem lá, menina, eu tava outro”. E continuou com sua Asa branca desbotada.
ADENDO
Este meu texto foi originalmente publicado na revista cultural Brouhaha, ano IV, nº 12, maio/junho de 2008. Hoje publico aqui no blog em homenagem ao rabequeiro, que essa semana, por causa de uma tuberculose, se separou definitivamente de sua rabeca. O texto também foi republicado na edição de hoje no Novo Jornal e citado em reportagem do Diário de Natal.