“Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”
Amyr Klink, em Mar Sem Fim
Morei um ano na Bélgica. Posso dizer que esse período foi o lide da minha ainda curta experiência de vida. No coração da Europa, a poucas horas de distância das principais cidades do velho mundo, segui meu objetivo de viajar o máximo possível. Conheci pelo menos 40 cidades em 16 países. Cruzei os mesmos canais onde mercadores criaram o mercantilismo. Toquei nas pedras de castelos que um dia viveram o feudalismo da Idade Média. Cheguei a centímetros de distâncias de quadros famosos como O Grito, recuperado. Respirei o mesmo ar que os personagens daquele grosso volume dos livros de histórias. Vivi culturas desconhecidas e aprendi com as diferenças.
Conheci europeus educados, prestativos e divertidos, e não tão frios e individualistas como se diz no Brasil. Alguns até desviram seu caminho pra me ajudar quando eu saí de vista do meu próprio mapa. Mas conheci também europeus objetivos, práticos e pontuais, simplesmente dando continuidade à sua cultura milenar. Alguns até chegaram a dizer que não poderiam ajudar a desvirar um caiaque cheio de água, porque não tinham nada a ver com aquilo. Aprendi que brasileiros no exterior viram necessariamente meus amigos, e pulam a etapa que eu teimava em criar, de seleção baseada nas ideologias e no gosto musical.
Vi que na Europa também tem lixo no nas ruas. Mas tem bem menos do que nas ruas brasileiras. Vi que na Europa os motoristas também ultrapassam a velocidade máxima permitida. Mas as estradas deles são melhores que as nossas. Aprendi até sobre o meu país: percebi que o Brasil ainda tem uma sociedade conservadora, ao contrário do que muitos pensam só por causa do nudismo permitido nos dias de carnaval. Vi que casais de namorados europeus abraçados nas ruas com a mão no bumbum do parceiro é demonstração de carinho numa sociedade “open minded”, e não baixaria, como se diria no Brasil.
Descobri que só suporto falar mal do meu país se for para brasileiros. Com estrangeiros, senti vergonha de conversar sobre segurança, saúde pública, desigualdade social, educação e corrupção no Brasil. Vi pessoas aterrorizadas com histórias sobre a miséria que eu encontrava todos os dias nas cidades brasileiras, e me questionei se eu já não me assusto mais com isso. Mas tive orgulho de dizer que formamos o Bric, que hoje temos uma economia forte, muito petróleo, muita biodiversidade e somos uma liderança na América Latina.
Tive que ouvir que um passeio de caiaque no Brasil deve ser mais emocionante do que nos Ardennes (Bélgica) por causa dos jacarés. Mas aprendi, com a saudade, que o sol é bom. Mesmo que ele seja até enjoativo no nordeste brasileiro. Descobri que sinto saudades e gosto do meu país, apesar de tantos problemas, apesar de também gostar de viver em lugares diferentes. Descobri que gosto de arroz e feijão, mesmo que eu ainda prefira experimentar comidas que nunca vi.
pôxa patrícia, que alegria quando vi entrar na minha caixa de email seus posts…bom, claro q fiquei na expectiva de ler outros, outros…enfim, quem sabe não leia seu livro sobre essa deliciosa aventura e viagem na história (c/ H e h) (de ontem, de hoje, quiçá, do futuro)…seja bem-vinda, de volta, ao nosso novo mundo…bjs
Oi Patrícia!
Vc tem e-mail? Tenho umas curiosidades, posso perguntar por lá? Lembro da sua história pelo Novo em Folha. Seja bem vinda de novo!
Beijos, Natália
Oi Natália, claro que pode! Já te mandei um e-mail com meus contatos ;)
Bjs